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Sexta-feira, Agosto 20, 2004 Sinceridade
Minha mãe me enviou esse texto dizendo que era a minha cara: e é mesmo.
MARCELO AMARAL Gilberto Gil disse - em entrevista à Veja - que a hipocrisia é uma ferramenta da civilidade. Aprendeu a lição na política. E admitiu recorrer constantemente ao fingimento na sua atuação como ministro da Cultura. Eu acho que ele se comporta assim há muito tempo. Gil não costuma ser objetivo quando fala. Mas, desta vez, imagino que pela boa edição da matéria, eu consegui compreendê-lo. Fiquei tão impressionado, que resolvi escrever sobre o tema levantado por ele. Eu tenho ojeriza a hipocrisia. Ela me provoca estresse. O que me ofende é falsidade. Prefiro que me digam, na lata, "não gosto de você". Isto não me agride. A verdadeira falta de respeito é falar bem na frente, e mal dos outros pelas costas. Suporto bem melhor ouvir "seu texto é uma merda", do que um "legal" somente por conveniência e simpatia. Um colega me considera estóico. Outro me chama de insensível. Reconheço que dou margem a estas interpretações. Mas não sou um "homem de gelo". Claro que eu gosto de receber manifestações de afeto por mim. Como também elogios ao meu trabalho. Agora, precisam ser autênticos. Se for só para me agradar, eu repilo. Incomoda-me o fingimento ser mais valorizado que a sinceridade. O cara que simula estar apaixonado por uma mulher - quando quer simplesmente transar com ela - tem mais chances do que aquele que admite só desejar sexo. Um dia desses, uma garota me convidou para ir a uma casa que toca pagode. Eu respondi - categoricamente - que odeio pagode. Aliás, também detesto sertanejo, axé e funk. Ela se irritou com a minha franqueza. Não é mais respeitoso eu ser honesto do que mentir que só para agradá-la? Bom, para mim, é. Na área profissional a dissimulação também prevalece. Eu tentei ser palestrante. Mas não consegui vender a minha palestra. E digo isso abertamente, em conversas e nas apresentações - gratuitas - que eu faço. Um colega disse que jamais eu poderia ter revelado que a minha palestra não vende. Não é comercialmente correto. Ele me aconselhou a usar a neurolingüística. Falar que a minha palestra se encontra "em desenvolvimento no mercado". É disso que eu tenho bronca. O "correto" fica sendo a mentira. Os eufemismos enganadores. A linguagem manipuladora. Defendo a franqueza inclusive nas situações banais. Uma coisa que sempre me irritou, desde criança, é ter de comer algo que eu não gosto na casa dos outros, só para não fazer desfeita. Não é necessário ser grosseiro. Basta dizer "não quero, obrigado". A melhor ferramenta da civilidade é a tolerância. Eu detestar música sertaneja não significa que eu vá jogar uma bomba no show do Bruno e Marrone. Dizer, na lata, que não vou com a cara do meu colega de trabalho, mas que, por profissionalismo convivo e coopero com ele, para mim, é mais saudável do que fingir afinidade. Desconfio que a hipocrisia, em um caso como esse, tem um efeito perverso: leva a fofocas e puxadas de tapete. Ficando tudo às claras, eu imagino que as intrigas perdem efeito. Sei que a falsidade é bem mais atraente. Ela tem dado mais resultado do que a sinceridade. Deveríamos, por mais custoso que seja, colocar a franqueza na frente das conveniências. Justamente para que a autenticidade passe a ser mais conveniente do que a dissimulação. Mas não acredito que isso aconteça. Algumas pessoas vão me recriminar por ter divulgado este texto. Vão dizer que eu não deveria ter sido tão franco. Podem pensar mal de mim. Como eu já mencionei, a hipocrisia me provoca estresse. Continuarei a escrever sobre as minhas posturas, esquisitices, intransigências e frescuras. Não tenho dinheiro para pagar um psicanalista. | |